Você sabe o que é pobreza menstrual?

Este é termo dado à falta de acesso a produtos para manter uma boa higiene no período da menstruação.


A menstruação é um processo natural do corpo das mulheres. Porém, devido à falta de saneamento básico, nem todas conseguem passar por esse periodo da maneira mais higiênica e saudável. Isso que chamamos de "pobreza menstrual" e, nesta semana, o SP Invisível está fazendo uma série de histórias sobre mulheres em situação de rua para saber como elas lidam com isso.


Nesta série, estamos com o apoio e queremos divulgar o trabalho do Fluxo Sem Tabu, um projeto sem fins lucrativos que luta pela democratização do conhecimento sobre menstruação e pelo acesso a higiene íntima nas camadas mais vulneráveis da sociedade. Sigam o Instagram do projeto e acompanhem os conteúdos para aprender mais sobre a causa.


A pobreza menstrual afeta mulheres e meninas em todo o mundo. O acesso a produtos sanitários, espaços seguros e higiênicos para utilizá-los e o direito de administrar a menstruação sem vergonha ou estigma são essenciais para quem menstrua.

Mas para muitas, isso não é uma realidade. Este não é apenas um risco potencial para a saúde – também pode significar que a educação de mulheres e meninas, seu bem-estar e, às vezes, vidas inteiras são afetadas.


Em 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu o direito das mulheres à higiene menstrual como uma questão de saúde pública e de direitos humanos. A própria ONU estima que uma em cada dez meninas perdem aula quando estão menstruadas.


No Brasil, aproximadamente 1,5 milhão mulheres vivem em casas sem banheiros e cerca de 213 mil meninas que frequentam escolas não têm banheiros em condições ótimas de uso – 65% dessas garotas são negras.


No sistema prisional brasileiro, onde 62% das mulheres são negras e 74% são mães, a lei obriga o Estado a fornecer assistência material e de saúde às presas. Mas 60,9% delas entende que a quantidade de absorventes oferecidos é insuficiente.


A maioria das presas depende do kit levado pelos familiares em dias de visita ou enviados por correio. Durante a pandemia, com a proibição das visitas, elas ficaram sem os produtos básicos de higiene.


POBREZA MENSTRUAL PELO MUNDO


Para se ter ideia da dimensão do problema, uma em cada 10 meninas na África faltam à escola porque não têm acesso a produtos sanitários ou porque não há banheiros privados seguros para usar na escola.


Só no Quênia, aproximadamente 50% das meninas em idade escolar não têm acesso a produtos sanitários. Já na Índia, aproximadamente 12% de seus 355 milhões de mulheres menstruadas não podem comprar produtos menstruais.


E o problema não está apenas em países em desenvolvimento. Estima-se que cerca de 137 mil meninas no Reino Unido faltam à escola todos os anos devido à falta de acesso a produtos sanitários.


Uma pesquisa da Universidade de Queensland descobriu que, na Austrália, as mulheres jovens se sentiram forçadas a roubar absorventes menstruais porque os pacotes podem custar até US $ 10 cada.


Mulheres sem-teto também eram particularmente vulneráveis ​​ao alto preço dos produtos menstruais, com milhares admitindo usar roupas velhas, jornais e até folhas durante o ciclo ou roubar em supermercados.


Alguns estados dos EUA aprovaram leis que obrigam as escolas a fornecer produtos de época aos alunos, considerando-os tão essenciais quanto o papel higiênico. As prisões federais do país só tornaram produtos menstruais gratuitos em 2018.


“Atender às necessidades de higiene de todas as adolescentes é uma questão fundamental de direitos humanos, dignidade e saúde pública”, disse Sanjay Wijesekera, ex-Chefe de Água, Saneamento e Higiene do UNICEF.

Acabar com a “pobreza menstrual” aumentou visivelmente mais consciência na grande mídia nos últimos anos.


Neste ano, o presidente francês Emmanuel Macron renovou a promessa feita em dezembro de que a dignidade das mulheres deve ser protegida do que ele chamou de “injustiça invisível” que não poderia mais ser tolerada.


O plano da França segue a decisão da Nova Zelândia de lançar produtos gratuitos para todos os alunos no início deste mês, e da Escócia, que se tornou o primeiro país a tornar os produtos periódicos gratuitos em 2020.


A higiene menstrual inadequada afeta populações no mundo todo, e as mulheres que vivem na pobreza são especialmente vulneráveis.


HISTÓRIAS SOBRE POBREZA MENSTRUAL



“Sempre que precisei de alguma informação sobre menstruação, eu encontrei sozinha. Ninguém quer falar desse assunto com uma pré-adolescente!


Pior do que o sofrimento das cólicas e o meu ciclo desregulado devido ao uso de drogas quando jovem, foi a agonia de não entender o que estava acontecendo com meu corpo.


No postos que distribuem preservativos, também poderiam distribuir absorventes, né? Os homens são protegidos de tudo, enquanto todo mês nós passamos o vexame de usar panos para se limpar...”


Eliana, em situação de rua, 30 anos. (Praça Patriarca)




"Ter cólica embaixo de um viaduto na chuva e usar um pano velho de absorvente era a minha rotina todo mês...


Ainda bem que eu tô na menopausa e acabou meu sofrimento! Até porque em 40 anos de situação de rua, dificilmente tínhamos absorvente... Parece até que se esqueceram que menstruamos na rua como todas as outras mulheres.


Estou nessa situação desde os 8 anos de idade. Meus pais faleceram, e eu não tive outro lugar para ir... O governo não me ajudou em nada, e minha mãe, que cuidou de tanta gente no hospital, não viu sequer uma boa alma me acolher depois da sua morte. Quem vai querer uma criança órfã dentro de casa?


Cada um tem uma história para contar, e se a sociedade parasse pra ouvir mais, e gritar menos, talvez nenhum de nós estaríamos aqui..."


Marcela*, em situação de rua. (Largo do Paisandu)


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